Edição 301 - Jul/Ago 2017

CALCE: problema ou solução?

LEIA A EDIÇÃO COMPLETA

Independentemente do estilo de cada um, dentre os vários tipos de calçados lançados no mercado a cada estação, provavelmente haverá nas lojas opções suficientes para agradar a todos os diferentes gostos. A questão é que nem sempre os modelos que mais chamam a atenção são confortáveis e, às vezes, o consumidor não resiste a adquirir um determinado exemplar, mesmo percebendo, ainda no ponto de venda, que este não oferece um calce adequado. Existem vários perfis que diferenciam nossos pés e entre as variações mais comuns há pés normais, robustos ou delgados (finos), o que significa uma dificuldade adicional ao comprador, pois não são todos os pontos de venda que disponibilizam uma grade de produtos que atendam a todas essas particularidades. A saída então para o cliente, muitas vezes, é tentar adequar o sapato adquirido para que atenda às suas necessidades de calce, e para isso recorre a uma série de práticas que prometem fazer o produto lacear (ceder no seu formato).

Há várias técnicas caseiras bastante popularizadas para isso e elas são fartamente divulgadas na internet, contando com dicas e depoimentos não só de usuários, mas inclusive de especialistas na área da saúde. Os métodos mais comuns para tentar resolver o problema de um sapato que machuca o pé durante o uso são: esquentar com secador de cabelo, congelar o produto, submergir em água quente, introduzir jornal ou papel úmido, passar hidratante, condicionador de cabelo ou vaselina, preencher o interior com milho ou feijão umedecido.

Cada vez mais há o entendimento de que o conforto é prioritário, sobressaindo-se até mesmo aos apelos estéticos do produto. Mas será que vale realmente a pena modificar as propriedades de um calçado para que ele se encaixe melhor no pé? O mais sensato não seria deixar de lado o calçado bonito e desconfortável e continuar a busca até encontrar um substituto que se ajuste melhor ao pé e também apresente uma modelagem que agrade visualmente?

É claro que esta busca seria simplificada se as marcas oferecessem mais de um perfil para cada numeração e isso não depende do lojista e sim do fabricante. O calçado deve ter um projeto de design voltado a proteger o pé respeitando a biomecânica. Isso envolve muita pesquisa e desenvolvimento para agregar funcionalidades aos materiais, implicando em investimentos volumosos realizados pelas empresas ao longo de toda a cadeia de desenvolvimento. Um único modelo pode ter dezenas de partes nas quais são usados vários tipos de materiais, como laminados sintéticos, tecidos, não tecidos, couros, borrachas, plásticos, elásticos, tachas e peças em metal.

Para garantir que o produto final tenha as características funcionais e de moda pretendidos pelos seus criadores, é preciso conhecer a fundo as propriedades de cada um destes insumos e componentes, de forma a utilizá-los adequadamente, caso contrário algumas características podem ser perdidas durante os processos de montagem. Um laminado sintético, por exemplo, que foi criado para absorver o suor do pé, se receber uma quantidade de adesivos acima do ideal, ao ser espalhado por toda a sua superfície, pode perder esta importante função.

É de se imaginar, portanto, que, quando se aplica uma técnica popular dessas para modificar o formato de um calçado já pronto, os atributos podem se desfazer. E aquela ação realizada para atender ao desejo da pessoa de melhorar o calce pode resultar até mesmo em riscos para a sua integridade física. Se por exemplo a estabilidade do calçado for afetada, o usuário pode sofrer queda ou torcer o pé - situações estas que podem causar lesões. Além disso, quando o problema de calce tem como motivo o pé delgado, nenhuma dessas técnicas oferece solução, pois não há opções para aumentar o comprimento do calçado.

"Na verdade, nenhuma dessas técnicas resolve os problemas de conforto. Se o calçado for pesado, ele continuará sendo pesado. Se induz a pronação excessiva, continuará a machucar seus joelhos. Se provocar o surgimento de bolhas, continuará fazendo lesões. Se ele tiver picos de pressão na região plantar, ele continuará com este problema", observa o coordenador do Laboratório de Biomecânica do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC), prof. Dr. Aluisio Avila. A solução ideal, segundo o pesquisador, é buscar os produtos produzidos com perfis diferenciados (tipo exportação), procurar as empresas que produzem modelos personalizados ou ainda importar das lojas que ofereçam os calçados produzidos com diferentes perfis.


Edições Anteriores
301
Jul/Ago
2017
300
Mai/Jun
2017
299
Mar/Abr
2017
298
Jan/Fev
2017
297
Nov/Dez
2016
296
Set/Out
2016
295
Jul/Ago
2016
294
Mai/Jun
2016