Edição 295 - Jul/Ago 2016

INDÚSTRIA 4.0: a quarta revolução é agora

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Às vezes esquecemos que somos o terceiro maior produtor de calçados do mundo e o maior do ocidente, e temos todas as condições para atender as necessidades postas em materiais, tecnologia, mão de obra, custos e design". Esta reflexão do presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Heitor Klein, foi feita durante a abertura da 48ª edição da feira Francal, que aconteceu no último mês de junho em São Paulo/SP. Porém ele considerou que se por um lado a percepção sobre o calçado brasileiro é que se trata de um produto com reconhecida qualidade e preço adequado, por outro alertou que as empresas que terão melhores chances de obter resultados positivos tão logo forem retomadas as condições ideais de competitividade são aquelas que - apesar das adversidades no cenário político e econômico - continuaram a investir em melhorias da produtividade, inovação e tecnologia. 

Destacando que a Manufatura Avançada é a alternativa tanto para o desenvolvimento de novos produtos quanto para processos produtivos mais sustentáveis e eficazes, que são fundamentais para a sobrevivência do setor, Klein assinalou que a entidade, em parceria com as demais instituições do sistema coureiro-calçadista, trabalha no sentido de aplicar na cadeia produtiva este conceito, também conhecido por Indústria 4.0. 

Essa prática de automação do sistema produtivo vem sendo adotada em diferentes países e é considerada a quarta Revolução Industrial. O objetivo é turbinar a indústria de transformação com a implantação de inteligência nos produtos e principalmente nos processos, que são realizados por máquinas capazes de tomar decisões sobre a dinâmica da produção, com base em informações fornecidas em rede no tempo real. Totalmente conectada, essa fábrica está integrada com os clientes e parceiros e tem grande capacidade de adaptação para atender as demandas do mercado. 

As quatro revoluções na indústria 
A Primeira Revolução Industrial aconteceu no início do século XIX (entre 1820 e 1840) com a transição de métodos de produção artesanais para a produção por máquinas. Nasceu na Inglaterra, de onde se espalhou primeiramente para a Europa Ocidental e em seguida aos Estados Unidos. 

A segunda, que foi iniciada entre 1850 e 1870, significou uma série de desenvolvimentos dentro das indústrias química, elétrica, petrolífera e de aço, sendo um aprimoramento e aperfeiçoamento das tecnologias surgidas na Primeira Revolução. 

A terceira etapa é chamada de Revolução Digital, termo que foi usado pela primeira vez em 2012 e se refere ao uso de eletrônicos e tecnologia da informação para automatizar ainda mais a produção. Houve a introdução dos controladores lógico-programáveis (CLP) e robôs passaram a ocupar o chão de fábrica. 

O processo pelo qual hoje passamos é o da Indústria 4.0, cujo nome foi criado na Alemanha e promove a total informatização da manufatura. Nesta fase, as máquinas, baseadas em sistemas físicos/cibernéticos e a internet das coisas, podem tomar decisões, por exemplo, sobre quando ligar, desligar ou até mesmo acelerar ou reduzir a produção. Especialistas acreditam que a Indústria 4.0 pode ser plenamente realizada dentro de uma década. Estamos, portanto, participando desta transformação, o que é uma grande oportunidade para a implantação de melhorias estruturais. 

O Brasil neste contexto 
Com pós-doutorado na área de manufatura, o professor do Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA), Jefferson Gomes, é considerado um dos maiores especialistas brasileiros no assunto. Em entrevista divulgada pela Agência CNI de Notícias, ele comenta como será possível à indústria nacional dar uma cara verde e amarela para a manufatura avançada. De acordo com Gomes, existem alguns entraves, principalmente relacionados à infraestrutura e à política de inovação, para que o Brasil entre neste patamar. 

"As análises da eficiência da inovação têm alguns pilares, como infraestrutura básica, ambiente macroeconômico, qualidade de educação e de saúde dos trabalhadores, grau de formação e treinamento para os trabalhadores, eficiência do mercado e desenvolvimento do mercado financeiro para que se viabilizem os negócios. No Brasil, numa escala de zero a sete dos relatórios de competitividade global, beiramos algo por volta de 3,5 ou 4. O tamanho do mercado é enorme, é algo positivo, mas em todos os outros quesitos, o Brasil precisa caminhar", contextualizou. 

Ao falar sobre o que a Manufatura Avançada traz de novo para a realidade das empresas, comentou que a compreensão fica mais fácil quando nos baseamos em casos específicos. Para ilustrar, ele citou que a capacidade de processamento de um celular atual é milhões de vezes maior que a do computador que levou a primeira nave à lua, e destacou que usamos apenas 10% da capacidade de processamento desses aparelhos. 

"Agora, coloque esses mesmos tipos de processadores num ambiente industrial. Da mesma forma, as máquinas atuais já têm muito mais capacidade do que está sendo, de fato, utilizado. Hoje a gente já poderia, como os mesmos equipamentos que temos, alcançar racionalização dos processos", assegurou. 

De acordo com ele, já há no Brasil empresas que estão deixando a produção mais inteligente, fazendo com que esse processo de decisão seja acionado ou não. "Recentemente, uma indústria fez um projeto de racionalização do uso dos equipamentos e reduziu o consumo de energia elétrica em 26%. Isso inclusive rendeu a ela um prêmio mundial. É uma prova de que, com os recursos já existentes, nós conseguimos deixar um sistema mais racional, seja gastando energia corretamente ou gerando menor quantidade de resíduos. Porém, a tomada de decisão pelas próprias máquinas vai demorar mais um pouco", considerou. 

Sobre o impacto dessa transformação, ele comentou que o ponto a ser discutido é o consumidor. "Se não houver exatamente o conhecimento do que o consumidor quer, não adianta ter a indústria mais avançada do mundo. Uma empresa vai partir para uma manufatura avançada se ela compreender o mercado que pretende alcançar", assegurou. Ele citou que recentemente, uma indústria de tênis norte-americana que só produzia na China resolveu montar uma fábrica nos EUA, praticamente sem gente trabalhando nela. 

"Você quase prototipa seu próprio tênis: escolhe o tecido, a sola, a cor, o tamanho do cadarço. Tudo isso virtualmente. É lançado o pedido de produção, tudo do jeito que você escolheu. O que está sendo vendido é a ideia de que o tênis é para você", explicou, lembrando que isso está acontecendo também com os táxis ou a entrega de comida, que chegam ao cliente através de um chamado por aplicativo. 

"A tendência é que os produtos e serviços fiquem mais personalizados. Ao mesmo tempo, a gente vai ver mudanças no trabalho, com grandes indústrias mundiais cada vez mais automatizadas, com empregados na supervisão e máquinas na produção. A produção será quase artesanal, mas com alta capacidade tecnológica", finalizou. 

O setor calçadista avança no tema 
O primeiro passo do setor calçadista na direção da Indústria 4.0 aconteceu no último mês de janeiro, quando a Abicalçados apresentou o conceito a representantes do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), com vista a formatação de um projeto com as entidades envolvidas, unindo ainda outras associações setoriais, como Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos para os Setores do Couro, Calçados e Afins (Abrameq), Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), Instituto by Brasil (IBB), Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefato (IBTeC) e os centros tecnológicos do Couro e do Calçado do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). 

Na oportunidade, a gestora de Projetos da Abicalçados, Roberta Ramos, explicou que a iniciativa tem foco na produtividade, incluindo os conceitos de manufatura avançada. "O projeto visa à criação de novos materiais com diferenciais tecnológicos e calçados com design baseado na biomecânica, processos com automação industrial e que integram a cadeia de suprimentos, e novos modelos de negócios a partir de uma cultura de inovação", resumiu. 

O tecnologista do MCTI, Sergio Knorr Velho, complementou que a inteligência está cada vez mais presente nos insumos, processos, equipamentos, robôs e produtos, que sem a intervenção humana podem produzir, mais rápido, com aumento da qualidade e com melhores resultados, mesmo quando se trata de itens personalizados. "Você e as coisas estarão conectados em redes. Pode medir seus pés, ter sua própria fôrma e possuir um calçado feito sob medida, mas também pode entrar em uma loja virtual, escolher seu modelo, suas cores e receber em casa, sem custos adicionais", pontuou. 

A customização em massa é uma das possibilidades nesse ambiente da manufatura avançada, que ganha velocidade afetando mercados tradicionais. "É uma revolução disruptiva que ocorre em quase todas as indústrias e em todos os países em uma rapidez jamais vista e que terá impacto em nossas vidas em um prazo de cinco a dez anos", assegurou. 

Ações 
Entre as ações para o setor calçadista, destacam-se desafios de inovação, fóruns com entidades relacionadas, criação de um centro de pesquisa com possibilidade de prototipagem rápida, pré incubadora, entre outros. Além disso, ações já existentes, como a plataforma de co-criação Moda Co e o evento chamado de Maratona MUDE passam a incluir o olhar da tecnologia e da inovação na sua concepção. 

Para o presidente do IBTeC, Paulo Griebeler, que também participou da reunião, neste momento desafiador é importante repensar o setor coureiro-calçadista como um todo, tendo como foco prioritário a satisfação do cliente. "É preciso avançar na realização de pesquisas e na implantação de novas tecnologias que proporcionem nos produtos e processos os avanços que o consumidor deseja, e o instituto está fazendo a sua parte apoiando na consolidação deste projeto que veio para dar suporte para as empresas inovarem nos seus negócios a partir dessa nova mentalidade, que visa a tornar a produção mais eficiente e os produtos mais funcionais e sustentáveis", comentou. Griebeler lembrou que o instituto vai realizar no próximo mês de outubro uma série de ações para fomentar a pesquisa, a inovação e a transferência de conhecimento, como a segunda edição do Fórum IBTeC de Inovação e o 1º IBTeCH DAY, com desafios para o setor de materiais durante a Semana do Calçado. 

No mês de maio Roberta esteve na sede do IBTeC para detalhar aos colaboradores como é o funcionamento desse projeto. Ela explicou que se trata de uma fase completamente nova para o setor, que precisa dar um salto tecnológico, principalmente em automação, design e inovação, e considerou que o instituto, bem como as demais entidades setoriais, contribui para o projeto com sugestões de melhorias e representatividade institucional. 

Ela, assim como o professor do Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA), Jefferson Gomes, e o presidente do IBTeC, Paulo Griebeler, reforçou que a chave desse processo é o consumidor. "Passamos por uma revolução digital, com as pessoas cada vez mais conectadas em rede e trabalhando de forma randômica, exponencial e com menos hierarquia, e o setor precisa se reinventar para não perder o contexto", considerou. 

Ela destacou que uma das principais mudanças no comportamento dos consumidores é que eles estão cada vez valorizando mais o acesso e menos a posse. "O Netflix, através do qual 75 milhões de assinantes mundo afora acessam os conteúdos disponibilizados na rede conforme a sua preferência, mas ninguém precisa comprar o filme ou a série para isso, é exemplo deste comportamento", sublinhou Roberta. Outro comportamento observado por ela é que a sustentabilidade se torna cada vez mais importante na hora da compra. O consumidor quer saber se o produto faz bem para si, para a família, e para o meio ambiente. 

Outro especialista em tendências do mercado que destaca o papel das pessoas neste contexto é o consultor Alessandro Saade. Durante a edição do Salão de Inspiração Inspiramais, realizada em junho em São Paulo/SP, ele falou sobre o comportamento de consumo e colaboração e enfatizou que o usuário hoje quer se sentir protagonista e ter acesso a tudo na palma da mão: faz o check in ao viajar, vê a previsão do tempo na hora em que deseja, combina a balada e chama o táxi pelo smartphone. Os fabricantes e prestadores de serviços precisam entender que tudo precisa estar ao alcance de um clic o tempo todo, alertou.


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